Sobre pelos e sofrimento psíquico

A gente faz um esforço danado pra abandonar qualquer traço animal em nós.
Começa na limpeza, querendo ficar longe de qualquer vestígio de terra, chamando ela de sujeira, e termina na etiqueta, chamando quem fala alto de “animais”.
Não aceitamos nem que somos animais como qualquer outro e negamos nossa natureza dizendo que somos superiores, últimos objetos da criação ou coisa parecida, só porque temos “consciência” (aí surge um austríaco chamado Freud dizendo que ela nem é tão importante e todo mundo fica maluco).
Pra nos diferenciar daqueles “animais sujos” acabamos pagando com o corpo: usamos roupas pra esconder o corpo (e quanto mais, melhor), perfumes que disfarcem nosso cheiro e qualquer pelo tem que ser controlado: barba, sombrancelha, axilas, pernas, virilha… Todos eles arrancados, debastados ou podados, sempre com alguma dor, pra afastar os vestígios de que somos apenas outra raça de macacos. Com muito pesar aceitamos os pelos do alto da cabeça, mas pra isso apelidamos eles de “cabelo”. Aqueles do rosto – a barba – não são totalmente aceitos e há quem seja resistente a eles. Cabelos são aceitáveis, barba às vezes, pelos jamais.
É ruim demais assumir que somos meros animais e fazemos de tudo para ser diferentes, até sofrer pra livrar o corpo dos pelos, com a justificativa de que é “em nome da higiene” – mesmo que não exista prova disso.
A gente quer ser especial porque tem “racionalidade”, mas o Freud já dizia que ela é só uma defesa muito das mal montadas.

No fim, é tudo por horror de sermos animais:
Quando você tenta ser legal com todos, é você negando seu lado animal de ficar irritado.
Quando tenta esconder sua tristeza ou alegria também.
Tudo pra não ser um macaco cheio de emoções primitivas.
Claro, ninguém precisa ir morar no mato e fingir que é bicho, mas o primeiro passo pra parar de sofrer é assumir essa posição: você é um animal lutando pra ser mais que isso.
Depois disso talvez dê pra fazer algo além de só tentar não ser um macaco.

Arte: @m_melgrati

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