Sócrates, fotografia e memória

Sócrates, o filósofo, tinha horror à escrita: dizia que essa “nova tecnologia” traria consigo o esquecimento, a morte do pensamento e a falta de implicação do leitor naquilo que lê. Preferiu transmitir seus conhecimentos oralmente e se recusou a escrever uma linha durante toda sua vida.
Seu pensamento só sobreviveu porque Platão o desobedeceu e escreveu em seus livros tudo o que escutou do mestre .

Há alguns anos li num artigo que a facilidade de acesso à informação está mudando o jeito como guardamos informações: hoje não é preciso memorizar quase informação nenhuma, está tudo na internet, a um clique de distância, sem necessidade de muita implicação para memorizar. Bateu uma dúvida? Basta olhar no celular, está tudo lá.
O autor usou exemplo dos números de telefone: antigamente era obrigatório memorizá-los. Alguns mais organizados anotavam nas agendas (que podiam ser perdidas) aqueles números menos utilizados, mas ainda memorizavam os mais importantes. Hoje não é mais necessário porque os contatos de todo mundo estão na palma das mãos, nos celulares, sem risco de perda já que estão salvos “na nuvem”.

Fiquei pensando em como essa facilidade em registrar tudo mudou inclusive minha memória afetiva: até bem pouco tempo me gabava da minha memória porque ela realmente era muito boa. Agora há pouco estava com dificuldades em lembrar coisas importantes e precisei recorrer à fotos pra lembrar, por exemplo, do dia que meu filho nasceu. Eu não precisei memorizar nada porque tirei fotos de tudo.
Em contrapartida, me lembrei em detalhes de quando um casal de amigos nos visitou meses antes do Dante nascer e todos esquecemos de tirar fotos.
É curioso porque eu realmente me lembro de coisas que aconteceram 20 anos atrás mas tenho dificiculades com coisas recentes, principalmente depois que comprei um smartphone.

Será que Socrátes estava certo?
Será que não é melhor exercitar a memória e parar de registrar tudo?
Será que não é a hora de aposentar as câmeras e viver sem fotos?

Fica a dúvida pra vocês também.

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