A pequena loja de diagnósticos dos horrores

Há cinco anos atendi uma pessoa que chegou ao consultório dizendo ser bipolar. Acolhi aquilo, não questionei o diagnóstico que o “colega psiquiatra” deu – depois de um atendimento super extenso de cinco minutos, – mas era um negócio muito esquisito: tudo o que ela fazia de atrapalhado na vida a culpa era da bipolaridade. A pessoa era curiosa, pesquisava bastante sobre o transtorno, então estava antenada nos sintomas. Brigou com o marido? Estava em estado de mania. Não quis trabalhar e ficou na cama? Estado depressivo. E daí por diante. Comecei a desconfiar que o diagnóstico estava muito errado. Estou dizendo que ela não tinha nada? Não.

Mas o comportamento me cheirou algo de outra ordem. O que quero dizer com isso? Existe hoje a “Pequena loja de diagnósticos dos horrores”: você chega no psiquiatra, diz o que sente e ele te dá um diagnóstico, te enche de remédios e você segue sua vida através do código impresso no livrinho mágico de doenças do DSM. Ninguém questiona, não procura segunda opinião.

O diagnóstico assim facilita a vida de todo mundo: o remédio “cura”, o nome da doença tira a responsabilidade do sujeito de encarar sua própria angústia e ainda serve de desculpa pra qualquer coisa dali em diante. “Não tenho controle, sou bipolar!” – cansei de ouvir isso de gente que queria culpar a doença pelas próprias babaquices.

Estou dizendo que não existem transtornos psíquicos? Jamais! Mas é um negócio muito mais complicado que uma consulta de cinco minutos vá identificar.

É muito fácil ter diagnóstico hoje: Seu trabalho não te empolga? TDAH.Sem paciência? Ansiedade generalizada. Tem medo do futuro? Depressão. Teu marido é um babaca e vocês brigam todos os dias porque ele não te respeita mas você ainda o ama? Bipolaridade. Seu filho não te obedece? TOD. Olha que maravilha.

A pequena loja de diagnósticos dos horrores tem um pra você, é só passar lá. O trabalho difícil e que nem todo mundo quer é questionar esses produtos. Fuja do diagnóstico fácil. Tem mais na vida que um crachá e um código.

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