Religiosidade e Depressão

Antes de continuar lendo esse texto, repita comigo e guarde bem as frases abaixo:
Depressão NÃO é falta de Deus no coração” e “Depressão NÃO é possessão demoníaca”.
Dito isso, podemos continuar.

Escuto muitas pessoas falando de forma bastante preconceituosa que Depressão é “falta de Deus no coração”, e não raro aparecem com citações bíblicas para justificar seus pontos de vista. Eu tento explicar pra essas pessoas que a Bíblia foi escrita há pelo menos dois mil anos, numa época em que não haviam instrumentos de pesquisa suficientes ou adequados para analisar corretamente o que é Depressão, mas hoje temos e eles mostram que essa visão é errada e que atrapalha muito no tratamento. Mas infelizmente não consigo, já que essas pessoas não querem escutar meus argumentos.

Apesar de ter essa visão sobre a questão religiosa, eu preciso falar honestamente sobre o papel da religião no tratamento da Depressão. Não vou falar aqui que a “religião cura”, porque não cura. Religião dá um conforto para a alma, mas quando se trata de Depressão estamos falando de adoecimento do corpo e isso demanda atendimento médico especializado, assim como psicoterapia. Mas a religiosidade, o pertencimento a qualquer tipo de grupo religioso ajuda MUITO na recuperação dos pacientes. Existem até estudos que apontam que o comportamento religioso diminui o risco de depressão, mas isso não quer dizer que ela sozinha vai tirar a pessoa da Depressão.

A religiosidade, o pertencimento a qualquer tipo de grupo religioso ajuda MUITO na recuperação dos pacientes

A sensação de pertencimento e propósito para a vida são sentimentos importantes a serem trabalhados durante o tratamento da Depressão; participar de um grupo religioso, ter atividades com a comunidade ajudam nesses pontos, independente da religião que a pessoa pertença; umbandista, judaica, espírita ou cristã: o importante é o sentimento de acolhimento que a atividade traz. Alguns vão até dizer que pessoas sem religião são mais propensas a ter Depressão, mas não é bem assim: lembre-se que o importante é a atividade em grupo, o sentimento de pertencimento e isso pode ser alcançado também em grupos de estudos, esportes, trabalho ou atividades sociais e podem ter resultados tão bons quanto as atividades religiosas.

E o que eu quero dizer com isso tudo? Religião sozinha não cura; vai até piorar a situação da pessoa se a doença for tratada só pela visão religiosa. Mas a religiosidade da pessoa é um ponto a ser considerado no processo do tratamento. A família e o grupo religioso que a pessoa participa precisam considerar esse ponto e, sempre que possível, convidá-la a participar dos encontros, cultos, missas – mas apenas convidar, forçar a pessoa a comparecer a esses eventos só vai piorar a situação, – sentir-se importante para a família e para o grupo vale muito.

Forçar a pessoa a comparecer a eventos religiosos só vai piorar a situação

E o que você pode fazer para ajudar seu colega depressivo então?

  1. Convide a pessoa para os eventos religiosos da fé que a pessoa pratica, ajude-o a se sentir membro de algo, mas não obrigue a ir contra a própria vontade;
  2. Não tente fazer a pessoa trocar de religião ou seguir a sua fé: não fique falando pra pessoa que se ela mudar pra sua igreja ela vai ficar melhor, isso pode gerar sentimentos ruins;
  3. Não diga que depressão é “falta de Deus no coração”, mas pergunte que a pessoa sente e escute o que tem para falar;
  4. Nunca diga que precisa rezar, mas diga que as pessoas sentem sua falta nos eventos (missas, cultos, encontros);
  5. Nunca diga que aquilo é possessão por entidades malignas, mas mostre que você ficará sempre ao lado para ajudar no que for necessário;
  6. Nunca diga que só a igreja salva, mas que se quiser vai ajudar a procurar um profissional que ajude.